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terça-feira, 8 de abril de 2014

Sobre garis e outras invisibilidades

Minha infância e adolescência foram de trabalho duro. Meu pai se levantava ao primeiro galo e nos chamava. Eu e meus dois irmãos. “Vamos, meninos, alguém precisa fazer o trabalho sujo”. Éramos garis.

Mas a palavra ‘gari’ ainda não existia. O eufemismo surgiu bem depois, pelo menos para os moradores da pequena Nova Glória, interior de Goiás. Por isso éramos ‘lixeiros’.

Apenas meu pai recebia – um salário mínimo – pela limpeza da cidade. O lixo era transportado numa carroça que tínhamos, do tempo em que ainda vivíamos na fazenda, de onde meus pais se mudaram para que pudéssemos estudar.

Toneladas de lixo eram transportadas por nossa égua russinha... Éramos apenas ajudantes - peças do mecanismo de exploração na engrenagem do poder público municipal, numa sociedade dita avançada que escondia (e esconde) formas contemporâneas de escravidão. 

Isso foi no início da década de 1980. Eu tinha então sete anos (um irmão de nove e outro de cinco), mas já desconfiávamos de algo que só viria a ser cientificamente demonstrado no Brasil em 2004: os garis são invisíveis.

A “descoberta” foi feita pelo psicólogo e professor Fernando Braga da Costa, que varreu rua por quase dois anos ao lado dos responsáveis pela limpeza da Cidade Universitária, em São Paulo.

A pesquisa participante resultou no ótimo livro Homens invisíveis: relatos de uma humilhação social. “O ofício de gari parece acentuadamente atravessado por um fenômeno de gênese e expressão intersubjetivas: a invisibilidade pública – espécie de desaparecimento psicossocial de um homem no meio de outros homens”, escreveu o pesquisador.

De fato, só sentimos falta dos garis quando eles entram em greve e lixo mal cheiroso que produzimos se acumula em nossas calçadas. Como os mendigos, os garis nos fazem lembrar a nossa própria miséria. Por isso os repelimos, e eles desaparecem.

Assim, perdemos a oportunidade de aprender com eles, como aprendeu Fernando Braga. “Os garis abriram meus olhos. Alguma consciência emergiu. Passei a ver coisas que não via. Passei a ouvir coisas que não ouvia. Passei a sofrer por coisas pelas quais não sofria (...)”.

Sofrimento e humilhação. Estas são as únicas coisas das quais me lembro dos três anos em que trabalhei como gari, apesar de não me envergonhar do que fiz, porque meu pai também fazia, e me orgulho dele...

Numa manhã de sábado, na Avenida Paulista, centro de Nova Glória, em frente a uma máquina de beneficiar arroz, meu pai apanhou o lixo que íamos juntando, alguns metros à frente. Um rapaz alto, branco e antipático jogou lixo na rua pouco depois que meu velho passou limpando.
- O que você acha que nós somos? – Perguntou papai, fazendo um círculo com o indicador.
- Nada. São lixeiros...

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Mulheres, piolhos e outras semelhanças

Relendo as memórias de Gabriel Garcia Márquez (Gabito, para os íntimos) descubro, com alegria, que temos muito em comum – exceto sua escrita, imaginação e memória.

Venho de uma família grande e pobre. Ele também. Fiz quase tudo na infância e adolescência para sobreviver – fui engraxate, gari, garçom, bóia fria, garimpeiro, digitador... O escritor colombiano também teve muitas profissões para ajudar a família ou para comprar gibis, jornais, livros e revistas.

Mas gostaria de falar de apenas dois aspectos, da minha vida e da dele, que acredito terem muita semelhança: a vergonha dos piolhos e o amor às mulheres.

Na zona rural do município de Ceres, onde nasci, no interior de Goiás, não tinha muito que fazer, a não ser o trabalho duro na roça. Ali, esperava-se a morte com ansiedade. Não a própria morte, mas a de algum vizinho, cujo velório reunia uma multidão saída sabe-se lá de onde. Como não tinham com quem deixar os filhos, meus pais levavam uma fileira de meninos e meninas pelo beco estreito feito pelo gado no meio do pasto.

Um dia, num desses velórios, meu pai me contou que quando uma pessoa morre os piolhos descem para o rosto do defunto à procura de sangue, que para de circular, ficando com a consistência de uma goiabada. E que quem pega piolho de defunto nunca mais se livra da praga. Assustado, pedi à minha mãe que, quando eu morresse, catasse de mim todos os piolhos, ou rapasse minha cabeça para que meus amigos não vissem meu rosto infestado dos insetos achatados.


“Até os cinco anos, a morte havia sido, para mim, um fim natural que acontece aos outros (...). Até que meio de esguelha reparei, num velório, que os piolhos estavam escapando dos cabelos do morto e caminhavam sem rumo pelo travesseiro. O que me inquietou desde então não foi o medo da morte e sim a vergonha de que também de mim escapassem os piolhos diante dos que estivessem enlutados em meu velório”, escreveu o Nobel de literatura.

Já a convivência com as mulheres – ao contrário dos piolhos – é um privilégio que Garcia Márquez e eu sempre tivemos. “Acho que, na verdade, eu devo a essência da minha maneira de ser às mulheres da família e às muitas das empregadas que pastorearam a minha infância. Eram de um gênio forte e coração terno, e me tratavam com a mesma naturalidade do paraíso terrenal”. Como ele, eu tenho mais irmãs que irmãos, mais primas que primos, mais amigas que amigos... Talvez por isso, sempre me senti melhor entre elas do que entre os homens.

P.S.

Vem também da minha infância o medo que tenho de dor de dente. Surgiu num velório, quando perguntei:
- Pai, por que essa velha (a morta) tá com esse pano amarrado do queixo pra cabeça?
- Ela morreu de dor de dente...

domingo, 30 de março de 2014

O Brasil é isolado pelo mar e pelo espanhol

“O Brasil é um país isolado pelo mar e pelo espanhol”. A frase do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (de quem discordo politicamente, mas reconheço como intelectual) reflete nossa falta de integração com nossos vizinhos, em grande parte por causa do idioma.


Estudo espanhol há muitos anos e, para praticar a língua de Cervantes, costumava entrar nas (hoje fora de moda) salas de bate-papo (chats) na internet. Ali “encontrava” mexicano, argentino, colombiano, boliviano, estadunidense, canadense, espanhol, alemão, mas nunca brasileiro.

Por causa desse distanciamento perdemos a oportunidade de saber sobre nossos vizinhos. Entretanto, nos informamos sobre o que se passa nos Estados Unidos, Ásia e Europa, onde estão os correspondentes das nossas emissoras de televisão.

Enquanto olhamos para o distante, ignoramos a beleza do cinema argentino, por exemplo – que já ganhou dois Oscar, com A história oficial (1985) e O segredo dos seus olhos (2010).

Sabemos quase nada também a respeito da música colombiana, salvo uma ou outra canção tema de novela como Para tu amor, de Juanes, e algumas da pop star Shakira, conhecida no mundo inteiro.

Somos todos latinos, mas nós, brasileiros, acreditamos que nos bastamos a nós mesmos, ou seja, não nos reconhecemos como latinoamericanos. Temos a impressão de que nossa língua e nossa diversidade cultural nos fazem auto-suficientes.

É uma pena, pois perdemos a oportunidade de aprender muito, afinal, a língua espanhola é terceira mais falada no mundo – atrás apenas do inglês e do mandarim – e não se limita apenas aos falantes de língua materna, que já ultrapassa os 350 milhões de pessoas.

E esse número cresce a cada ano pela quantidade de pessoas que aprendem o idioma como língua estrangeira, se destacando também no mundo comercial, principalmente na comunidade europeia, onde é a segunda língua mais utilizada – perdendo apenas para o inglês. Vem alcançando também um número considerável de internautas, sendo atualmente a terceira língua mais utilizada na internet.

No Brasil, a proximidade com as fronteiras de países hispanofalantes e o aumento das relações comerciais impulsionadas pelo Mercosul, levaram o governo brasileiro a introduzir a língua espanhola como oferta obrigatória nas escolas, por meio da Lei nº 11.161, em 05 de agosto de 2005, conhecida com a Lei do Espanhol.

No entanto, como tudo no Brasil, a obrigatoriedade não garantiu a oferta do ensino do idioma nas escolas públicas. No Tocantins, por exemplo, não há 50 professores de espanhol concursados, para os 139 municípios.


Se nada for feito, correremos o risco de transformar o ensino da língua espanhola na escola pública o que há anos acontece com o inglês – idioma no qual nossos jovens raramente vão além do verbo to be...

sábado, 29 de março de 2014

O mito da raça

Importante reflexão sobre o mito da raça. Não existem raças, o que há é uma única raça, a humana!!!


sexta-feira, 28 de março de 2014

Da difícil vida dos políticos

Já ouvi inúmeros deputados e vereadores me dizerem que eles, os políticos, são “mal vistos” pela sociedade por culpa de “vocês, da imprensa”. É mesmo, excelências?

E eu que sempre imaginei que a crise de representatividade no Legislativo estivesse associada ao fato de muitos parlamentares não serem vistos com muita frequência nas sessões, comparecendo somente após determinação do Executivo para votar, contra ou a favor, deste ou ou daquele projeto...

Porque suas excelências são eleitas pela oposição e depois vão para o governo – e vice-versa...

Por mudarem de partido sob qualquer pretexto, ou brecha na lei, por eles elaboradas...

Por aprovarem seus próprios salários, 35 vezes maior que a média nacional, sem contar todas as benesses do cargo, como verba de gabinete, viagens oficiais e verba indenizatória...

Por só extinguirem outras benesses – auxílio-moradia, sessões extras remuneradas, 14º e 15º salários – após ações judiciais e críticas na imprensa...

Por aprovarem qualquer aumento de salário e criação de “vantagens” aos representantes dos demais poderes – Judiciário e Executivo – e fazerem ouvidos moucos para o clamor de professores, policiais e outros servidores públicos...

Por defenderem “os mais necessitados” somente nos palanques, e nunca da tribuna do parlamento, após a eleição...

Por entrarem e sair da casa de leis pela porta dos fundos, evitando encontrar com os pobres que lotam seus gabinetes em busca do emprego prometido durante a eleição...

A lista é longa e sei que seu tempo é curto, caro leitor. Por isso, voltaremos a falar sobre esse tema.

P. S.

Qualquer semelhança com a realidade, excelências, não é mera coincidência.

quinta-feira, 27 de março de 2014

A inveja é uma m...

Mais dois dedos de prosa sobre a inveja.

O escritor americano Gore Vidal padecia de inveja. Com uma carreira bem sucedida, Vidal, falecido em 2012, era um invejoso diferente. Ele confessava o problema e ainda fazia terapia para se curar.

Certa vez, ao ser questionado sobre a forma como lidava com o sucesso de seus colegas, ele respondeu: “Quando um dos meus amigos tem sucesso, alguma coisa em mim se apaga”.

Nelson Rodrigues também sofria de inveja. Teria confessado o sentimento após a morte de Guimarães Rosa. “A notícia deu-me um alívio, uma brusca e vil euforia. É fácil admirar, sem ressentimento, um gênio morto.”

Machado de Assis, considerado o maior escritor brasileiro, teria escrito seu grande romance Memórias Póstumas de Brás Cubas “movido” pelo sentimento de inveja que sentia pelo português Eça de Queiroz, autor de O primo Basílio...

P.S.

A seguir, alguns links com sugestões de leitura para quem se interessou e quer saber um pouco mais sobre o assunto:









quarta-feira, 26 de março de 2014

No creo em brujas, pero que las hay, las hay

O tema inveja sempre me interessou. Inveja como tese, claro, não o sentimento em si. Meu interesse pelo assunto foi despertado pelo jornalista e escritor Zuenir Ventura, com seu livro Inveja – mal secreto (Editora Objetiva).

O livro prende a atenção do leitor logo nas primeiras páginas, nas quais Zuenir adverte sobre estas importantes distinções: “aos que pretendem empreender essa viagem, o autor pede que levem consigo, para o caso de se perderem, três distinções básicas: ciúme é querer manter o que se tem; cobiça é querer o que não se tem; inveja é não querer que o outro tenha”.

Parte integrante da coleção Plenos Pecados – que discute os sete pecados capitais – mal secreto é muito mais que um livro sobre inveja. É um delicioso relato sobre alguém que está escrevendo um livro sobre inveja.

Ensinamentos

Diferente de outros pecados – como a gula e a luxúria – a inveja é de fato um mal secreto. Quem a possui esconde. Vive num mundo de trevas...

Desta forma, ninguém é invejoso. Todos são invejados. Aliás, sentir-se invejado é uma das principais características dos invejosos. E quem, afinal, não conhece alguém que se diz “invejado”?

Outra informação importante sobre esse tenebroso mal é que, segundo Zuenir e outros invejólogos, não existem inveja boa ou inveja branca. Desconfio, inclusive, que o último termo é racista!

O argumento para a inveja boa parece ser o mesmo dos que se dizem invejados: ambos têm a função de atenuar a vergonha que se tem do sentimento de inveja.

Vale destacar ainda que a inveja se manifesta entre iguais. No ambiente de trabalho, por exemplo. Por isso, costuma-se dizer que rei inveja rei e mendigo inveja mendigo.

Portanto, não se sinta culpado por achar que inveja algum cantor, ator ou escritor famoso – a não ser que você seja um destes.

Vamos parando por aqui, porque este assunto rende páginas e páginas. Pessoalmente, morro de inveja de quem tem a capacidade de sintetizar o que escreve...

P.S.

Não sei se inveja realmente existe. E dizem que ser supersticioso dá azar. Na dúvida, vou usando figa, trevo de quatro folhas, galhos de arruda...